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Creche parental: como as famílias se organizam para cuidar das crianças

É preciso uma aldeia inteira para cuidar de uma criança. Isso é o que diz um provérbio africano, mas que dimensiona o suporte que nós, pais e mães, precisamos para criar nossos filhos. Afinal, educamos uma criança para a sociedade, para que, no futuro, ela possa transformá-la em um lugar melhor para viver. Nada mais justo que fôssemos acolhidos por ela. Mas vivemos tempos complexos, como disse o educador e professor Severino Antônio, em entrevista para o documentário O Começo da Vida: “Uma das grandes solidões do mundo contemporâneo é a perda da comunidade”.

Criar uma rede de apoio realmente não é tão simples, as famílias não são mais numerosas como eram no passado – dados do IBGE mostram que o número de filhos por família vem caindo desde a década de 1960 –, nem vivem mais tão juntas como antes, com avós, tios, primos próximos. Sem contar que a rotina das grandes metrópoles pode ser uma barreira para olhar o outro com compaixão.

Para driblar esse cenário, mães e pais estão formando grupos para cuidarem uns dos filhos dos outros em diferentes cidades do Brasil. Eles se organizam em espaços alugados, públicos ou nas próprias casas. Esse é o conceito das creches parentais, também chamadas de cooperativa ou associação de pais, inspiradas no modelo francês, que tem ganhado espaço no país como alternativa a babás e creches convencionais.

O que motiva essa organização

Não há números no Brasil sobre esses locais e as famílias contam que optam por esse modelo por falta de vagas em creches públicas e até mesmo particulares, ou pelo alto custo das escolas e das babás. Há aquelas que buscam uma educação mais livre, com menos regras e mais envolvimento de pais e mães. Tem ainda quem procure uma rede de apoio e troca para deixar a maternidade e a paternidade menos solitárias e poder refletir sobre a educação que gostariam de dar para os filhos.

A servidora pública Aline Correa Sobral Melo, da creche parental Nosso Ninho (PR), afirma que poder estar presente e participar ativamente da rotina das suas filhas é uma das principais vantagens desse formato: “Na creche e na escola você só ouve ‘ele ficou bem, comeu isso, fez aquilo’. Quando está dentro do processo, você tem voz e liberdade para participar do desenvolvimento do seu filho”.

Como funcionam

Não existe uma regra que resuma como as creches parentais funcionam, já que depende do grupo e das demandas, mas todas têm em comum a participação ativa e intensa das famílias em alguma etapa do processo, seja no dia a dia com as crianças ou em questões mais administrativas. Os pais também se organizam de acordo com sua profissão. Existem os que não trabalham ou são autônomos, mas mesmo quem tem emprego fixo e horários pouco flexíveis consegue encontrar uma forma de conciliar a rotina da creche.

Em alguns casos, é possível outra alternativa, como pagar uma cuidadora (ou mediadora) para cobrir a sua escala (sendo que esta pode ficar junto com as famílias durante os turnos) ou negociar com o empregador e ter desconto na folha de pagamento pelas horas ausentes. Os encontros podem acontecer de duas a cinco vezes por semana e o custo tem grandes variáveis. A idade das crianças oscila bem, de 6 meses a 4 anos, embora, em alguns casos, haja membros de 6 e 7 anos.

Se chegar a um consenso com o seu companheiro sobre como criar o seu filho pode ser difícil aí na sua casa, pense o quanto é desafiador para essas famílias. Para elas, no entanto, esse é um exercício que as aproxima e vai além da rotina da creche parental. São pais e mães que se unem para criar os filhos em comunidade.

Filho comunitário

A cuidadora Tatiana Silva trabalha como auxiliar em dois projetos de creche parental no Rio de Janeiro e conta que seu papel é dar suporte na relação de coletividade entre as famílias. “Geralmente, os bebês exigem muito da mãe, e ele precisa sentir ali, na convivência com outras crianças, que essa mãe também precisa cuidar de outros bebês, não só dele”, diz. Ela cursou Pedagogia por um ano e meio, mas decidiu sair por entender que a experiência nos grupos era uma “faculdade viva”. “É uma riqueza enorme lidar com os desafios da diversidade. Cada família tem uma linguagem, sons e cheiros diferentes. A criança entende que o mundo é assim, e não um ambiente tão preparado como é a escola.”

Para Tatiana, esses movimentos são um resgate do instinto comunitário presente na nossa ancestralidade e há resistência nesse sentido. “Todo mundo acha interessante, mas a gente vive em um momento muito individualista e institucionalizado. A criança tem que ir para a creche, é uma premissa social.” Mãe de Acauã e Íris, ela hoje se sente acolhida por muitas redes. “Estou mais segura de que o cuidado da criança não precisa e não vai ser só meu.”

Educação convencional x parental

Apesar de acreditar que o movimento seja interessante e que os pais têm liberdade para decidir que tipo de educação querem dar aos filhos, para a educadora Gabriela Guarnieri de Campos Tebet, do Departamento de Ciências Sociais na Educação da Unicamp (SP), esses arranjos não devem substituir a creche convencional. “Educação infantil é uma coisa, espaço de convivência familiar é outra. São propostas distintas com objetivos distintos. Não podem nem devem ser tomadas como sinônimos”, explica a especialista, que é coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Políticas Públicas e Educação.

Ela afirma que, por definição, essa primeira etapa da educação básica deve acontecer em espaços institucionais não domésticos, como creches e pré-escolas, que cuidam de crianças de 0 a 5 anos. Isso é um direito, segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. “A formação específica dos profissionais que atuam na educação infantil, o planejamento e a organização adequada do espaço da creche, assim como os materiais específicos, têm grande importância para o desenvolvimento infantil. É por isso que defendo que esse tipo de iniciativa de pais não pode substituir a educação infantil. Mas deve ser entendido como uma ação complementar em casos específicos e apenas quando essa for uma opção das famílias e não uma política pública”, pondera.

Por isso, sugere Gabriela, “se os pais não estão satisfeitos com as opções oferecidas, eles deveriam se envolver em movimentos de luta por educação infantil de qualidade e organizações de pais que questionam e ajudam a equipe escolar a construir novas propostas para as creches”.

Outro ponto dessa questão legal é que a Emenda Constitucional no 59, de 2009, torna obrigatória a matrícula de crianças na pré-escola a partir dos 4 anos. Na prática, não existe uma punição estipulada para quem descumprir a regra, mas algumas creches parentais limitam a idade até 4 anos para não ter problemas. Como também não há uma lei que as regulamente, cabe às famílias entenderem e combinarem como vão lidar com a Justiça caso surja alguma questão nesse sentido.

Longe do Brasil...

As nossas creches parentais são inspiradas em um modelo francês que surgiu em meados de 1970, também organizadas pelas famílias. O movimento cresceu e, 20 anos depois, o governo da França reconheceu, regulamentou e passou a financiar as creches parentais. A psicóloga, pesquisadora e escritora Carolina Pombo conheceu de perto essas iniciativas quando fez doutorado por lá. Ela conta que elas surgiram por falta de vagas nas creches públicas, mas também são um recurso para mães que têm receio de deixar os bebês por muitas horas em instituições.

São associações registradas no órgão público local de saúde materno-infantil, que têm pediatra, psicólogo, diretora pedagógica e auxiliares treinados. A gestão fica a cargo dos pais, que se dividem em tarefas de tesouraria, secretaria e manutenção. Cada família precisa dedicar um tempo mínimo, que vai de um a quatro turnos mensais. “Como são regulamentadas e seguem uma série de parâmetros, são até um pouco mais caras do que as creches públicas, que têm o valor calculado de acordo com a renda da família”, explica Carolina.

Existe outro modelo de cuidado compartilhado na Alemanha chamado Tagesmutter. São famílias que abrem suas casas para cuidar de crianças de até 3 anos. É preciso fazer uma formação e a casa é inspecionada pelas prefeituras, que ficam responsáveis pela fiscalização e organização desse sistema.

Para o educador Vicente Góes, pesquisador nas áreas de sustentabilidade e transdisciplinaridade, a criação de redes de apoio entre famílias é uma forma interessante de oferecer experiências aos filhos. “Existe uma carência de espaços de autonomia da criança fora da escola e a rede é uma boa solução para isso. Na escola há pouca diversidade, elas são agrupadas por classe social e valores muito semelhantes”, explica.

Vicente foi um dos criadores de um grupo chamado Barro Molhado, em que 15 famílias e cinco educadores se encontravam em praças e parques de São Paulo para discutir a educação das crianças. Os eventos aconteceram por três meses, algumas vezes por semana, com diversas demandas. Hoje, o grupo cresceu. “São mais de 50 famílias, e a gente se entendeu como rede.”

Na visão dele, as creches parentais fazem sentido na fase do puerpério, quando as mães acabaram de ter seus bebês e encontram mais disponibilidade para se apoiar. “Essa necessidade se dilui ao longo do crescimento das crianças. As famílias acreditam nisso como um sonho, mas têm dificuldades de empreender nesses projetos, trabalhar e tomar conta do resto da vida ao mesmo tempo.”

Como criar uma creche parental

Conhecendo as experiências brasileiras, é possível ver que não existe padrão (nem legislação) na maneira como os grupos se organizam. Aqui vai um passo a passo por onde começar:
1) Pesquise: Leia tudo sobre o assunto. Existem grupos de Facebook que discutem cuidados coletivos e compartilhados.
2) Encontre interessados: Procure pais e mães da sua cidade, de preferência do seu bairro, que podem curtir a ideia. Talvez você tenha de explicar o que é e como funciona o modelo. O ideal é que vocês marquem reuniões presenciais. Se as pessoas não conseguirem tempo para se encontrar, dificilmente o projeto vai dar certo.
3) Definam como vai ser: Com o grupo formado, é hora de discutir detalhes práticos. O primeiro é onde vai ser a creche parental. Leve em consideração segurança, higiene, distância e estrutura adequada para as crianças. Se decidirem alugar um espaço, é preciso levantar os custos e as questões burocráticas envolvidas. Outra decisão é sobre quantas vezes por semana e em quais horários vocês vão se encontrar, levando em conta o tempo e o orçamento que cada família tem disponível.
4) Experimentem: O começo é sempre um pouco conturbado e leva um tempo até todo mundo se adaptar à nova rotina. Ao longo do processo, muita coisa pode mudar e tudo bem. O importante é que vocês conversem sempre e façam ajustes quando for necessário.

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