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Gravidez precisa mesmo esperar 12 semanas para contar

A maternidade está impregnada com uma porção de dogmas. Há regras e regras sobre como as mães devem agir, o que podem (ou não podem) comer, de que forma montar o enxoval, arrumar o quarto, preparar a casa... O primeiro deles surge logo após o teste dar positivo: quando contar sobre a gravidez. Parece que o primeiro dos 10 mandamentos da boa mãe é esperar pelo fim do primeiro trimestre para botar a boca (ou a barriga) no mundo e anunciar que um bebê está a caminho.

Seria tranquilo seguir essa recomendação à risca se: 1) fosse fácil manter um segredo desses quando a felicidade de gerar uma nova vida mal cabe no peito e 2) a mulher, já fragilizada por um momento de tanta insegurança, não ficasse isolada enquanto precisa lidar com os sintomas iniciais da gestação que, convenhamos, não são fáceis.

O primeiro trimestre tem a fama de ser o pior de todos. E não é por acaso. Mesmo sem o peso do barrigão, que atormenta a reta final, no começo da gestação, os hormônios enlouquecidos provocam enjoos, sonolência, maior sensibilidade nos seios, alterações no funcionamento do intestino e até dores de cabeça. Em alguns casos, a gestante pode ter hiperêmese gravídica, caracterizada por náuseas e vômitos intensos.

Embora todos esses desconfortos típicos do comecinho da gravidez possam denunciar a novidade, há um fato que alimenta a vontade de prolongar o sigilo: o medo do aborto espontâneo. É justo considerar que esse período de silêncio foi estipulado em grande parte pelas evidências médicas, que apontam que o risco de perda gestacional é mesmo maior no primeiro trimestre.

“Até 20% das gestações evoluem para aborto antes de 20 semanas, sendo que, destas, 80% são interrompidas até a 12ª semana”, explica o obstetra Fábio Muniz, do Hospital e Maternidade São Cristóvão (SP). Após a 15ª semana, o risco de abortamento cai para 0,6%. E, por causa do declínio estatístico, muitos casais optam por não contar que a família vai aumentar até que esse período mais tenso chegue ao fim. Especialmente quando os precedentes não são muito animadores.

Que medo que dá

O temor de perder o bebê não é raridade entre as gestantes. O problema é que esse medo de sofrer – ou de causar sofrimento às pessoas queridas – acaba se tornando um motivo de angústia. O silenciamento deixa a mãe desamparada no momento em que ela mais precisa, como bem sabe a doula e psicóloga perinatal Raquel Jandozza. Ela acompanha muitas mulheres que precisam enfrentar a perda gestacional sozinhas, em vários casos porque nem a família nem pessoas próximas sequer sabiam sobre o bebê que estava a caminho. “Essas mulheres não se dão nem o direito de se sentirem mãe daquele feto, elas não têm voz. É muito confuso ver que se sufoca a alegria para anular a possibilidade da dor”, reflete.

Na prática, essa recomendação de esperar passar o primeiro trimestre equivale a passar em branco praticamente um terço da gestação. Ou seja, em um período considerável e crucial, o casal se vê sozinho, em meio a uma porção de dúvidas, medos e inseguranças, ao mesmo tempo em que precisa se segurar para não deixar escapar uma alegria imensa.

Por isso, Raquel defende que é preciso separar as evidências médicas da vivência afetiva dessa nova fase. “A espera é uma recomendação técnica, mas a gestação é emoção. No campo afetivo, é quase como dizer: guarde em uma caixinha tudo isso. Lide sozinha ou lide minimamente. E isso é de uma crueldade imensa”, explica.

Do ponto de vista médico, é indiscutível que há maiores riscos no começo. Mas, veja só: a mulher já está grávida. Independente de contar ou não antes das 12 semanas completas, de certa forma, ela já é mãe. E, mesmo que esse filho nem chegue a nascer, ela está vivendo a experiência de gestar.

Já aconteceu. Não há mais como voltar atrás.

Então, para não deixar o medo tirar o encanto desse momento tão incrível, só há uma solução: mudar o olhar que temos sobre a vida e também sobre a morte. “Uma vez instaurada a existência, o risco de perecer é iminente. Infelizmente, ninguém quer lidar com a morte em se tratando de bebês, de gravidez. Só que não falar sobre isso é não se envolver com algo inerente ao processo”, diz Raquel. Até porque, vale lembrar: em caso de aborto espontâneo, não há nada que a mulher possa fazer. É uma situação que foge do controle. E, pior, que raramente encontra acolhimento.

Qual o melhor momento?

Não há uma data certa para a revelação. Nem um período 100% seguro, com garantias de que tudo vai dar certo. “Trazer filhos ao mundo é uma entrega. Quando ele nasce, você o entrega ao mundo, não sabe o que vai acontecer depois, o que vai ser dessa criança. E isso começa na gestação”, explica Raquel.

Por isso, vale parar para refletir: você tem mesmo medo de contar ou está simplesmente seguindo uma convenção? Está curtindo de fato a gravidez ou apenas consumindo o tempo com preocupações que, na verdade, fogem ao seu controle? E se passar por algum percalço, não é melhor ter ao seu lado gente querida que poderá apoiá-la? Não existe uma resposta só. Se faltou segurança para contar a notícia de cara, tudo bem. Agora, se você estiver angustiada, se corroendo com o segredo apertado no peito, não é melhor desabafar? E lembre-se: muito antes de nascer, o bebê já existe na cabeça e no coração da família. E isso, por si só, já é um baita motivo para celebrar.

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