voltar

Humor de grávida

Tão inevitável quanto a barriga de uma grávida crescer é o humor mudar. E muito. E em poucos minutos. E quase sem razão nenhuma. O fato é comprovado por todas as gestantes. Sem exagero. Diante da pergunta “Seu humor muda muito durante a gravidez?”, as respostas são: “Estou com os nervos à flor da pele”, “Acho que enlouqueci”, “Todo mundo me evita, tal o meu mau humor”. Ninguém enlouquece por estar grávida. Mas que os sentimentos mudam a cada minuto – da euforia à depressão, da alegria à tristeza profunda –, isso é bem verdade. Parte dessa montanha-russa de emoções tem uma explicação científica – hormonal, para ser mais exata. E a saída para enfrentar os nove meses é manter o bom humor. Pode não ser fácil, mas, acredite, é possível levar com mais leveza.



O que diz a ciência



Os hormônios são substâncias produzidas por glândulas espalhadas pelo corpo, como a hipófise, a tireoide e o ovário. Lançados na corrente sanguínea, eles regulam o bom funcionamento do organismo. Todo mês, um pouco antes da menstruação, o ovário produz os hormônios progesterona e estrogênio, responsáveis pela preparação do corpo para a gravidez. O processo para com a eliminação do óvulo não fecundado, mas, mesmo assim, as mulheres sentem seus efeitos na TPM, a tensão pré-menstrual.



Quando ocorre a fecundação do óvulo, ele próprio se encarrega de produzir novo tipo de hormônio, o gonadotrofina coriônica ou HCG, justamente o que acusa o resultado positivo nos exames de gravidez. Lançado na corrente sanguínea, o HCG “avisa” que existe um bebê em formação e que, por isso, precisa de uma produção maior de progesterona e estrogênio.



Eles passam a ser produzidos pela placenta em escalas “industriais” e são indispensáveis para que ocorra uma gestação. “A progesterona atua deixando o metabolismo mais lento, de maneira que a mulher não queira sair correndo. É um mecanismo de proteção da gravidez”, explica Hans Halbe, obstetra do Hospital das Clínicas, em São Paulo. “O problema é que a progesterona e o estrogênio têm um efeito depressivo sobre o humor e deixam a mulher mais sonolenta, cansada, desanimada.”



Já os grandes níveis de HCG são responsáveis por fazer algumas gestantes vomitarem. Sua presença também tem a tendência de deixá-las enjoadas com cheiros, comidas e até pessoas de que antes gostavam – mas isso só acontece se houver alguma repulsa anterior, ainda que inconsciente.



Efeito montanha-russa



“Não é só a presença dos hormônios depressores que levam a mulher a ficar desconfortável. O maior problema é o aumento das substâncias. Os hormônios vivem em equilíbrio constante. Se um aumenta ou diminui, interfere na produção dos outros. O organismo é obrigado a se ajustar e reconhece toda essa adaptação como uma verdadeira crise. Pior do que o aumento são as oscilações”, observa o obstetra Abner Lobão Neto, coordenador do serviço de pré-natal personalizado da Universidade Federal de São Paulo.



O HCG que acusa a gestação, por exemplo, aumenta rapidamente até começar a cair em alta velocidade durante o primeiro trimestre. Já a progesterona pode crescer 15 vezes seu nível durante a gestação: vai de 40 miligramas da substância circulando pelo corpo durante 24 horas para 250 a 600 miligramas, conforme o desenvolvimento do bebê. O estrogênio, apesar de não atuar diretamente no humor, também atrapalha, porque passa do normal 0,6 miligrama para até 20 miligramas por dia em mulheres grávidas. É uma montanha-russa sem fim para o humor. E dá-lhe choro até durante comerciais, trailers de filmes, álbuns de fotos...



Para que tanto hormônio?!



A progesterona é responsável por preparar a cavidade uterina, deixando o endométrio mais espesso, pronto para receber, fixar e ajudar a desenvolver o óvulo fecundado. Ela mantém o útero assim até o final da gravidez e tem o importante papel de deixar a musculatura uterina relaxada durante os nove meses, inibindo contrações antes da hora. Além disso, combinada com outras substâncias, a progesterona auxilia no crescimento das mamas da mãe e no desenvolvimento dos órgãos sexuais do bebê.



O estrogênio ajuda a reorganizar o metabolismo da mulher, que agora, além de manter o corpo funcionando, também tem de dar conta do desenvolvimento de um novo ser. E o HCG tem uma função importantíssima: evitar que o organismo da mulher reconheça o feto como um corpo estranho, rejeitando-o e causando um aborto. Com o HCG, cada órgão sabe o que fazer enquanto o bebê se desenvolve.



Para além desse trio



A partir da segunda metade da gestação, entram em cena outras modificações físicas que não deixam a vida mais divertida. Os pés, por exemplo, incham, obrigando a grávida a refazer seu sapateiro com pares um ou dois números maiores ou adotar chinelos para tudo. O cansaço agora também vem por conta da barriga, que começa a pesar, dificultar movimentos simples e, muitas vezes, provocar dores na coluna.



“Além disso, também é preciso levar em conta o contexto de vida da mulher. É seu primeiro filho? A gravidez era desejada ou, no fundo, a mulher sente que vai atrapalhar a carreira? Quais são suas expectativas com as mudanças físicas e de papel na sociedade? A ação dos hormônios está misturada a essas questões, que podem aparecer disfarçadas em forma de ansiedade e comportamentos explosivos”, diz o obstetra Lobão Neto.



“Muitas mulheres também aproveitam a fase para fazer uma reavaliação da própria vida, o que as deixa naturalmente mais sensíveis”, explica Ana Merzel Kernkraut, psicóloga da Unidade Materno-Infantil do Hospital Albert Einstein. “Existe sempre um misto de querer e não querer e dúvidas sobre a saúde do bebê, que só irão diminuir com o primeiro ultrassom”, comenta. E a grávida também entra em contato com emoções novas, que podem lembrar a infância, a relação com a mãe. Tudo isso pode ter resultados diversos sobre o seu humor.

especificação

Data27/03/2019
AutorCrescer, Crescer