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Pós-parto: expectativa x realidade

Enxoval feito, roupas lavadas, quarto arrumado, mala da maternidade checada, lembrancinhas prontas, bebê-conforto no carro. Tudo pronto para a chegada do bebê, certo? Pode não ser bem assim... É só voltar para casa com o recém-nascido para perceber que as grandes dificuldades não estão nas coisas práticas.

É o sono que nunca mais será o mesmo, o isolamento dos primeiros dias, o sentimento de insegurança ao ver aquele ser tão indefeso chorar e não saber o motivo certo, a amamentação que torna-se um grande desafio, o corpo que ainda está se recuperando do parto. Além de tudo isso, ainda tem o relacionamento com o companheiro, os palpiteiros de plantão, a casa que precisa ser arrumada, a comida que precisa ser feita, as visitas que teimam em aparecer sem avisar e ficar até tarde quando o bebê precisa dormir.

Não, não é o fim do mundo. O puerpério (normalmente as primeiras seis a oito semanas após o parto) é um período necessário, uma fase passageira, que pode ser mais difícil para umas e menos para outras, mas com certeza transformadora para todas. “Os primeiros momentos maternos são de reconhecimento e desconstrução. Reconhecimento de uma nova vida, de uma nova realidade. E a desconstrução dos mitos, das idealizações e da mulher que se foi para construir uma nova mulher, que é mãe. A forma como esse reconhecimento e essa desconstrução vão acontecer diz respeito à história de cada mulher, de como cada uma lida com o novo, com o imprevisível e com o pequeno caos da falta inicial de rotina. É um momento extremamente necessário para que mãe e bebê se reconheçam e encontrem seu caminho”, afirma Raisa Arruda, psicóloga especialista em maternidade, de Fortaleza (CE).

É por isso que cada vez mais se ouve ou se lê nas redes sociais comentários como “uma linda lua de leite para você” quando alguém comunica o nascimento de um filho. A lua de leite nada mais é que esse momento extremamente necessário para que mãe e filho se conectem, se conheçam, se apaixonem.

Nesse período, o ideal é que a mulher possa se desligar das demais atividades, como cuidar da casa, responder e-mails de trabalho ou fazer sala para visitas e dedicar-se exclusivamente àquele ser que depende totalmente dela. Assim, ela pode descansar quando ele dormir, alimentar-se bem e começar a compreender o novo integrante da família.

“Tornar-se mãe e pai é uma construção diária, que não nasce como bebê. A formação do vínculo é gradativa e requer muito colo e contato físico. Para isso, é importante se desligar do mundo externo e de atividades que realizava antes e entrar no ritmo do bebê. É um aprendizado constante e conjunto”, defende Paloma Vilhena, psicoterapeuta especialista em psicologia da gestação, parto e pós-parto e consultora de aleitamento materno pelo Grupo de Apoio à Maternidade Ativa (Gama), de São Paulo (SP).

Ah, se eu soubesse...

Você pode estar pensando: “Mas eu me preparei! Li todos os livros sobre maternidade, fiz o curso de gestante, conversei com amigas. E ainda assim não estava pronta para a realidade”. É exatamente isso que acontece na maioria das vezes. Mas por que a mulher se prepara tanto e mesmo assim é pega de surpresa?

Muito provavelmente pelo fato de que a maternidade ainda é bastante romantizada pela sociedade, aliado ao pensamento da nossa geração de que a mulher tem que dar conta de tudo. Para todos os lados que você olha, se depara com uma imagem sobre a maternidade que nem sempre condiz com a realidade, inclusive nas redes sociais e nas rodas de amigas, de que é fácil e simples, de que é natural.

Como há uma pressão absurda pela mulher perfeita ser também uma mãe perfeita, poucas têm coragem de expor os momentos difíceis por medo do julgamento. Dificilmente alguma amiga vai conseguir dizer com todas as letras como são as noites sem dormir, os choros de cólica ou o cansaço extremo que se sente. “Na nossa sociedade muito voltada para o consumismo, a maternidade é vista como a oitava maravilha do mundo. Claro que é, mas é também um luto – recheado de muito amor e encantamento – de um corpo que não é o mesmo, uma vida que não é a mesma, um filho ou parto que provavelmente foi diferente do idealizado”, explica Anna Gallafrio, doula, educadora perinatal e coach de mães.

A dica para tentar estar pronta para o puerpério é saber que, independentemente da sua personalidade, da sua configuração familiar, se é o primeiro ou o quarto filho, ou do tipo de parto que terá, você estará diante do novo, do desconhecido. Como se preparar para isso? Segundo Anna Gallafrio, com entrega e confiança. “No puerpério, produzir significa ficar com o bebê no colo, aceitar o ritmo dele e estabelecer a relação com essa nova pessoa. É como quando a gente se apaixona: também precisamos nos entregar e confiar, certo?”

Quero ajuda, sim!

Para que seja possível essa entrega, uma coisa é essencial: rede de apoio. Não importa se será formada só pelo companheiro e a avó ou se a família vai contratar uma pessoa para ajudar com os afazeres da casa, por exemplo. Mas a mãe só vai conseguir se dedicar exclusivamente ao filho se não precisar se preocupar com todo o resto.

Roda do tempo

Outro pensamento bastante comum, principalmente para as mulheres que trabalham fora, é: “Oba, terei muito tempo livre!”. Aí elas acham que vão conseguir ler aqueles livros parados no criado-mudo há meses, assistir a séries completas na TV ou até mesmo estudar para concurso ou terminar aquela tese de mestrado. Normalmente, isso não passa de ilusão. Por mais calmo que o bebê seja, ele demanda cuidados constantes, o cansaço fala mais alto e todos esses planos acabam ficando para trás.

Solidão materna

Em um momento tão delicado como o puerpério, o ideal é que a mulher fique mais quieta, dedicando-se à construção da sua relação com o filho. Esse isolamento tem seu lado bom, mas para algumas pode ser negativo. “A mulher fica o dia inteiro de pijama, não arruma nem a cama. Cria-se um ambiente propício à depressão, pois nessa fase ela já tem os hormônios oscilando bastante”, opina Carolina Ambrogini, ginecologista, obstetra, sexóloga e coordenadora do Projeto Afrodite, da Unifesp.

A bagunça hormonal ajuda a desencadear emoções para lá de conflitantes: é a culpa por não amar loucamente aquele bebê desde que nasceu, depois amá-lo com todas as forças, mas detestar as implicações que a função de mãe traz e por aí vai. Essa turbulência emocional é o que caracteriza o baby blues, marcado por melancolia, tristeza e choro, mas que passa quando os hormônios voltam a ficar controlados. E, se persistir, acompanhado de sentimentos incapacitantes, pensamentos negativos obsessivos e falta de cuidado com o bebê ou apatia, pode caracterizar um quadro de depressão pós-parto, que precisa de tratamento.

“A maternidade é cansativa, frustrante e é permitido sentir raiva e tristeza, sim. Ter sentimentos ruins não exclui os sentimentos bons e isso não significa que a mãe não ama o bebê, e sim que é humana. Ter um espaço para poder falar sobre isso, seja com familiares e amigos, grupos ou profissionais, ajuda muito”, defende a psicoterapeuta Paloma Vilhena.

Grupos de apoio

E se toda mãe pudesse frequentar um espaço em que fosse acolhida, ouvida e orientada por profissionais interessados, além de poder dividir suas experiências e escutar relatos de outras famílias que estejam passando pelas mesmas dificuldades que ela? Pois é isso que acontece nas rodas de conversa e grupos de apoio voltados à maternidade.

Essa é uma realidade já presente em diversas instituições que trabalham com gestantes, por exemplo – uma ótima forma de se preparar para o puerpério, inclusive. “A mulher que estava sendo cuidada até então fica sozinha. Nos grupos há partilha de experiências, cria-se uma rede de apoio, elas viram amigas”, conta Gisele Leal, doula e proprietária do Espaço Mulheres Empoderadas, de Campinas (SP).

Nessas conversas, a mulher recebe orientações sobre alimentação, rotina, sono e, na imensa maioria das vezes, sobre a amamentação, processo que costuma não ser nada fácil nesse início. “Por volta do terceiro dia após o parto, acontece a descida do leite, mas de forma intensa e irregular, e o bebê ainda não tem tanta capacidade de sucção. É um momento delicado de adaptação entre mãe e filho. Isso tudo acontece em uma semana, precisa ter muita calma, apoio e um ambiente de serenidade”, orienta Suely Carvalho, coordenadora da Rede Nacional de Parteiras Tradicionais do Brasil e fundadora do Cais do Parto, em Olinda (PE), que promove formação de parteiras e doulas, que depois montam grupos em suas casas para auxiliar famílias durante a gestação e o puerpério.

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