Quando o pai se sente grávido - Mais Abraços
voltar

Quando o pai se sente grávido

Falta de apetite, azia, enjoo só de olhar para determinados alimentos, vontade constante de ir ao banheiro e dores intensas na lombar, típicas de quem carrega um bebê na barriga. Você acha que estamos falando de uma mulher grávida? Não dessa vez! A ansiedade gerada pela responsabilidade que a paternidade traz ou a vivência intensa da gestação podem fazer com que o homem somatize alguns sintomas e sinta-se grávido. A ciência explica.

O que pouca gente sabe é que tanto as manifestações físicas quanto as comportamentais sentidas por alguns futuros pais têm nome e sobrenome: é a síndrome de Couvade, pesquisada e diagnosticada pela primeira vez há 50 anos pelo psiquiatra britânico William Trethowan. Ele acompanhou um grupo de pais durante a gestação de suas esposas e percebeu que muitos apresentavam sintomas iguais aos delas. Enjoavam, vomitavam, sentiam nojo de alguns alimentos, além de perderem o apetite.

A síndrome, contudo, nunca foi classificada como transtorno mental, já que é apenas um conjunto de sintomas físicos, de origem psicológica, que mostra uma forte ligação afetiva do homem com a mãe do bebê e demonstra também a ansiedade com o novo papel que ele vai interpretar na vida: o de pai. Ela pode aparecer em qualquer momento da gestação, mas, segundo os pesquisadores, tem data certa para ir embora, geralmente quando o bebê nasce ou dias depois do parto. Por isso, o único remédio que pode ser prescrito para eles, e também para elas, é uma dose de paciência com umas gotinhas de compreensão. E, claro, se essas mudanças chegarem a incomodar demais, vale procurar ajuda com um especialista.

Não é só psicológico

A psicóloga Talu Andréa Dartora de Martini pesquisou mais recentemente a síndrome em pais brasileiros para sua tese de mestrado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. No estudo – que revelou que 53% dos homens sofrem alguma mudança física durante a gestação –, ela descobriu que eles sentem outros sintomas além dos descritos inicialmente pelo psiquiatra britânico. “Muitos apresentam aumento da circunferência abdominal, dor nas costas e ganho de peso”, afirma.

Segundo o estudo, a principal causadora dos sintomas nos “grávidos” é realmente emocional. “A ansiedade foi o sentimento mais citado pelos futuros pais”, diz Talu. Por isso, aqueles que escapam dos enjoos de gravidez, por exemplo, costumam demonstrar sua ansiedade de outra forma.

Duas pesquisas recentes realizadas por endocrinologistas canadenses afirmam ter comprovado que os sintomas de gravidez no homem não são apenas psicológicos, mas também biológicos. Os médicos compararam as mudanças hormonais de casais grávidos com casais que não esperavam bebê e descobriram que havia elevações nos níveis dos hormônios prolactina e estradiol e diminuição de cortisol e testosterona nos homens durante a gestação da companheira – imitando, em menor grau, as mudanças fisiológicas delas.

Essa constatação reforça a hipótese, ainda não totalmente comprovada, de que a gravidez também provoca efeitos fisiológicos nos homens e que há uma base hormonal – e não só psicológica – nos sintomas que aparecem nos futuros pais.

Outras manifestações

A ansiedade pode aparecer de outra forma, como com a preocupação financeira. Há homens que, até antes de descobrirem a gravidez, dão início a um planejamento para pagar a faculdade do futuro herdeiro. Segundo a psicóloga Priscila Gasparini Fernandes, do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, os homens se preocupam com o lado racional muito mais que a mulher. “Eles se conectam com a responsabilidade da paternidade, de conseguir manter financeiramente esse filho, os gastos com enxoval, médico e escola”, explica.

O cuidado com a mulher e com a gestação, por vezes extrapolado, chega, em alguns casos, até a incomodar a grávida. Há homens que leem tanto a respeito da gestação que pegam no pé da companheira em cada pequeno desvio, principalmente na alimentação. Chegam a proibir um pastel ou impõem o consumo de brócolis, por exemplo, que vai ser mais saudável para o bebê naquela semana de formação de neurônios. Ou sonham tanto com o momento do nascimento que querem impor um parto natural, livre de anestesia, sem levar em conta que quem sente a dor de parir é a mulher – e, neste caso, cabe a ela decidir.

Se você, grávida, que está lendo esta reportagem, se identifica com esse tipo de situação, entenda, não é por mal. “O homem quer que o bebê nasça saudável e que tudo corra bem. Por isso, fica ansioso e quer tomar conta de tudo”, diz Priscila. “Mas sempre vale uma conversa para que se aparem as arestas”, diz.

Outra questão não rara que também paira na cabeça de muitos homens é o medo de o sexo prejudicar o bebê. Por isso, para você, futuro pai, que está lendo o texto e sofre com esse receio, o ginecologista e obstetra Ricardo Roscito Arenella, do Hospital São Luiz (SP), reforça: “Sexo é uma prática saudável, segura e importante para a conexão do casal durante a gravidez”. As contraindicações são raras. “Apenas quando há episódios de sangramento muito recentes, sinais de descolamento ovular ou placentário no primeiro trimestre, inserção baixa de placenta ou risco de parto prematuro”, explica.

Mas e se o pai não parece estar nem aí?

Muitos futuros pais sentem dificuldade para se conectar com a gravidez, o que leva a uma frustração da mulher que tanto sonhou com aquele momento. Segundo a psicanalista Vera Iaconelli, mestre e doutora pela USP, autora do livro Mal-Estar na Maternidade: Do Infanticídio à Função Materna e diretora do Instituto Gerar (SP), essa expectativa em cima deles pode ser cruel. “Tem certa pressão social, que passa também por um processo de idealização, de que o pai perfeito é aquele que passa os nove meses acariciando a barriga da mãe do bebê. É como se existisse um jeito certo de ser pai. Isso é tudo bobagem”, afirma. “Ele tem de virar pai do jeito dele, no tempo dele, sem ser pressionado ou julgado”, diz.

Às vezes, isso acontece só na hora do nascimento do bebê, ou com a convivência entre filho e pai. Vera lembra que a maioria dos homens não foi educada para a paternidade. “A gente não pode esquecer que os meninos são criados e estimulados a brincar de coisas que os tornem ‘homens’, o que exclui tudo o que diz respeito a cuidar de bebês. Depois, adultos, são cobrados para que tenham comportamento de pai”, conta. “Precisamos permitir que os meninos possam brincar de qualquer coisa, inclusive de casinha ou de boneca. Assim, contribuímos para se tornarem futuros pais”, diz.

especificação

AutorRita Lisauskas